terça-feira, 22 de outubro de 2013

Site interessante - CONTOS DE MACHADO DE ASSIS

ANÁLISE DO POEMA EPÍLOGOS DE GREGÓRIO DE MATOS

Que falta nesta cidade?................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?.............Ambição
E o maior desta loucura?...............Usura.
Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.
Quais são os seus doces objetos?....Pretos
Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.
E que justiça a resguarda?.............Bastarda
É grátis distribuída?......................Vendida
Que tem, que a todos assusta?.......Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.
Que vai pela clerezia?..................Simonia
E pelos membros da Igreja?..........Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha.
Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.
E nos frades há manqueiras?.........Freiras
Em que ocupam os serões?............Sermões
Não se ocupam em disputas?.........Putas.
Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.
O açúcar já se acabou?..................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu
Logo já convalesceu?.....................Morreu.
À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.
A Câmara não acode?...................Não pode
Pois não tem todo o poder?...........Não quer
É que o governo a convence?........Não vence.
Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.



Gregório de Matos

OBSERVAÇÕES:
Gregório de Matos, já em Portugal, tinha reputação de poeta satírico e improvisador. Quando chega ao Brasil em 1682 começa a satirizar os costumes do povo de todas as classes sociais baianas e dos nobres. Desenvolve uma poesia corrosiva e erótica, apesar de ter andado por caminhos líricos e sagrados. Criticava o governador, o Clero, os comerciantes, os negros, os mulatos, os colonos, os bachareis, os degredados lusos que conforme comentamos neste trabalho eram trazidos para o Brasil e aqui enriqueciam, etc. Criticava a incompetência, a promiscuidade e a desonestidade.
Encontrou uma sociedade em crise que passava fome com a decadência econômica do açúcar brasileiro, o qual passou a perder mercado e preço para o açúcar das Antilhas; enquanto os comerciantes (portugueses na maioria) acumulavam riquezas com a importação e exportação de produtos.
Neste poema ele retrata exatamente estas características de forma irônica mostrando a paisagem moral ou “imoral” na verdade de Salvador, Bahia, nossa capital na época colonial; e assim abriu espaço para a língua do povo e as manifestações nativistas de nossa literatura com autores que passaram a criar uma consciência crítica nacional, a qual ainda demorou um século para concretizar-se realmente.

Bibliografia:
Biografia de Gregório de MatosDisponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_de_Matos>.
Acesso em: 11 out. 2013.

Análise do poema: Epílogos
Disponível em: <http://nelsonsouzza.blogspot.com.br/2010/03/analise-do-poema-epilogos.html>.
Acesso em: 11 out. 2013.


PRODUZIDO POR: DANIELA MENEGASSI E GEZIEL ALVES DE MELO 

ANÁLISE DO POEMA AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DE PE. JOSÉ DE ANCHIETA

Ao Santíssimo Sacramento

Oh que pão, oh que comida, Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar Cada dia. Filho da Virgem Maria Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou Crua morte. E para que nos conforte Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento Sua graça. Esta divina fogaça. É manjar de lutadores,
Galardão de vencedores Esforçados.
Deleite de enamorados Que com o gosto deste pão
Deixem a deleitarão Transitória. Quem quiser haver vitória Do falso contentamento, Goste deste sacramento Divinal. Ele dá vida imortal, Este mata toda fome, Porque nele Deus é homem Se contêm. É fonte de todo bem Da qual quem bem se embebeda Não tenha medo de queda Do pecado. Oh! que divino bocado que tem todos os sabores, Vindes, pobres pecadores, A comer.
Não tendes de que temer
Senão de vossos pecados;
Se forem bem confessados,
Isso basta.
Que este manjar tudo gasta,
Porque é fogo gastador,
Que com seu divino ardor
Tudo abrasa.
É pão dos filhos de casa
Com que sempre se sustentam
E virtudes acrescentam
De contino.
Todo al é desatino
Se não comer tal vianda,
Com que a alma sempre anda
Satisfeita.
Este manjar aproveita
Para vícios arrancar
E virtudes arraigar
Nas entranhas.
Suas graças são tamanhas,
Que se não podem contar,
Mas bem se podem gostar
De quem ama.
Sua graça se desarruma
Nos devotos corações
E os enche de bênções
Copiosas.
Oh que entranhas piedosas
De vosso divino amor!
Ó meu Deus e meu Senhor
Humanado!
Quem vos fez tão namorado
De quem tanto vos ofende?!
Quem vos ata, quem vos prende
Com tais nós?!

Pe. José de Anchieta


OBSERVAÇÕES:
A análise do poema revela a importância de se compreender ao menos em parte o que o autor quis dizer através da obra. Para que seja interpretada com coerência, é necessária a compreensão do contexto histórico da época na qual a obra foi escrita. No caso do autor em questão, utilizou-se dos versos para a evangelização dos índios conforme a Doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana a partir da chegada dos portugueses nas terras brasileiras.
O poema foi escrito entre os anos de 1534 a 1597, por Pe. José de Anchieta, que chegou ao Brasil em 13 de junho de 1553, com menos de 20 anos, juntamente com outros padres a pedido do Pe. Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas no Brasil, pois como sabemos a partir da colonização dos nossos índios pelos portugueses, os mesmos passaram a ser “catequizados” pelos padres jesuítas na Doutrina Católica. O religioso era responsável não apenas em educar e catequizar os indígenas, como também defendê-los dos abusos dos colonizadores portugueses que queriam escravizá-los e tomar-lhes as mulheres e filhos.
Pe. José de Anchieta procurou conviver com os índios para aprender um pouco mais sobre suas culturas e costumes a fim de criar maneiras para “catequizá-los” e assim escreveu o poema em análise fazendo uso de palavras e termos específicos da “antropofagia” (ato de comer uma parte ou várias partes do corpo de um ser humano) realizada por algumas tribos indígenas porque pensavam que passariam a ter as habilidades e força das pessoas que comiam. Desta forma, Pe. José de Anchieta passou a ensinar o assunto em questão (a Eucaristia, a hóstia consagrada, que para os católicos torna-se o Corpo de Cristo para a remissão dos pecados) com o objetivo de fazê-los compreender aquilo de alguma forma a fim de que passassem a realizar tal prática também.

Abaixo, algumas estrofes do poema que demonstram isso:

Oh que pão, que comida,
Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar
cada dia!
.................................

Vinde pobres pecadores,
a "comer".
Que este manjar tudo gasta
porque é fogo gastador,
que, com seu divino ardor,
tudo abrasa.


Conforme o Pe. Luiz Cássio Moreira, doutorado em Comunicação Social Institucional pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma, se a "carne do irmão", para o índio, o “antropófago do mato”, visava adquirir "as virtudes do comido" numa espantosa comunhão pelo sangue, Anchieta falava em "invenção de manjar", em "comida", em "vianda" (saborosa), em "vos comer", para que os seus catecúmenos comessem a Eucaristia que era a carne de Cristo. Só mesmo assim, falando em vianda e bocado gostoso, poderia ele convencer o selvagem que, por seu lado, pensava ser o Batismo um ato de feitiçaria.
Concluímos a partir desta breve análise que os índios foram realmente “manipulados” pelos portugueses e seus padres jesuítas que até podiam ter boas intenções e acreditamos que sim, mas que apenas cumpriram suas obrigações conforme exigia a Alteza de Portugal. Eles utilizaram formas de fazer com que os indígenas passassem a “imitá-los” porque compararam tais gestos aos costumes dos mesmos, mas isso não significa que os índios tenham compreendido o que estava acontecendo ou que fizessem por prazer e devoção a Deus.

Bibliografia:
Ao Santíssimo Sacramento
Disponível em: <http://www.webartigos.com/artigos/analise-do-poema-ao-santissimo-sacramento/31077/>.
Acesso em: 10 out. 2013.

Biografia de José de Anchieta
Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Anchieta>.
Acesso em: 10 out. 2013.

Poema Ao Santíssimo Sacramento
Disponível em: <http://padrecassio.blogspot.com.br/2010/06/anchieta-e-o-seu-amor-ao-santissimo.html>.
Acesso em: 10 out. 2013.

AntropofagiaDisponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Antropofagia>.
Acesso em: 11 out. 2013.


PRODUZIDO POR: DANIELA MENEGASSI E GEZIEL ALVES DE MELO 

ANÁLISE DA CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA

Justificativa:
Consideramos relevante e interessante este tipo de estudo e análise porque, de fato, desconhecemos a nossa própria história e essência, se é que elas existem, pois nesta faculdade já tivemos contato com diversos textos de nossa literatura, bem como seus autores, que nos comprovam a perda das mesmas e infelizmente a nossa falta de identidade.
Percebemos também que esta perda não foi culpa nossa ou dos índios, mas do triste processo de colonização pelo qual passamos por parte dos Portugueses que aqui chegaram e instalaram-se com intuitos principalmente econômicos, negando aos índios, povo que aqui já habitava, a chance de se defender e preservar seus costumes e culturas.
Tudo o que vivemos hoje, considerando os aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais, dentre outros; e principalmente os aspectos negativos, estão definitivamente relacionados com a história de nosso país vivida no passado e por isso sempre sofreremos suas consequências.

A carta foi escrita na forma de um relato na qual Pero Vaz de Caminha descreve ao rei de Portugal, D. Manuel, os aspectos observados aqui no Brasil quando os navios portugueses aqui chegaram.
Fizemos observações a partir de trechos sublinhados e grifados no texto apresentado conforme abaixo.

Senhor,
Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.


OBSERVAÇÕES: No trecho acima Caminha explica ao rei como narrador em 1ª pessoa, seu objetivo de prestar conta do ocorrido, mas prefere propositalmente enfatizar que será fiel aos fatos, sem acrescentar ou tirar nada, o que ao longo do texto e por entre linhas percebemos que não é verdade.
É importante percebermos também que ele menciona o achamento desta terra nova, mas sabemos que nossas terras aqui já existiam e eram habitadas pelos índios, por isso, nenhuma terra foi achada e sim invadida.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado.
E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:
E digo quê:
A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser!
Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais !
E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!


OBSERVAÇÕES: Este trecho é realmente intrigante, pois fazendo menção das léguas seguidas pelos navios portugueses, comprova-se que os mesmos já tinham uma rota definida para aqui então chegar e, portanto, não descobriram lugar algum. Aqui vieram propositalmente com a intenção de tomar nossas terras e nossas riquezas.
Percebemos que Caminha menciona os nomes das ervas e aves ao longo do caminho, desta forma “alguém” já tinha nomeado tais elementos e criaturas, os “índios” que aqui já viviam é claro. Concluímos tamanha hipocrisia ao dizer que descobriram o Brasil.

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.
Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.
OBSERVAÇÕES: Caminha começa a descrever a população local, os “índios” e seus primeiros contatos com os portugueses. Nos trechos sublinhados ficam abismados com a maneira de viver deles nus sem coisa alguma que lhes cobrisse suas partes íntimas, ressaltando que os portugueses eram Cristãos Católicos e seus preceitos condenavam tal maneira de se portar; e consideravam-na desrespeitosa.
Percebemos que os índios já conheciam os brancos quando abaixam seus arcos e só fizeram isso porque não ofereceram perigo. Além disso, usam a desculpa ao rei do mar quebrar na costa por não compreenderem a linguagem dos índios.

À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.
E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

OBSERVAÇÕES: É interessante ressaltar que ele menciona que os índios andavam nus, mas tinham uma inocência, o que mostra que perceberam que eram passivos de dominação.
Ficam espantados com os objetos que usavam no corpo e os enxergam como animais.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

OBSERVAÇÕES: Faz menção ao ouro que os índios carregavam nos colares sobre o pescoço e percebem que conheciam a prata dos castiçais, tendo então a certeza de que em nossas terras encontrariam tais riquezas.
Considera os índios mal educados porque não respondem cordialmente seus cumprimentos, mas podemos deduzir que, como poderiam ser cordiais se suas terras estavam sendo invadidas por homens estranhos e tinham o dever de defendê-las?

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.
Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.
Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.
Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.
Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

OBSERVAÇÕES: Neste trecho Caminha descreve o que os índios reconheciam ou não dentre animais, comidas, etc., que eles os apresentavam. Continua afirmando que foram mal educados porque desfizeram das coisas oferecidas pelos portugueses, mas esquecemos de compreender nas entre linhas que, como poderiam comer ou beber daquelas comidas e bebidas que já estavam estragadas, já que a viagem dos navios durou alguns meses e não tinham refrigeração? É perfeitamente compreensível tal atitude e faríamos o mesmo.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.
O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.
Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças -- ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.
E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d'água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.
E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d'escaques.
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbana deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d'água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.
Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

OBSERVAÇÕES:  Nos trechos acima intriga-nos a questão da tintura que os índios usavam nos corpos mencionada, a qual era um costume muito diferente para os portugueses que usavam roupas e temos contato com a primeira impressão deles com relação a figura da mulher quando viram as índias. Narram tal figura reforçando ao rei o formato do corpo das mulheres que também estavam nuas com suas partes íntimas descobertas sem vergonha, mas já intencionalmente dizem que as mesmas eram fáceis de se tomar e ai já começa a má fama da mulher brasileira.

E com isto nos tornamos, e eles foram-se.
À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu -- ele com todos nós -- em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.
Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que lá tinham -- as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.
OBSERVAÇÕES:
Percebemos a realização por parte dos portugueses de uma missa conforme a Doutrina Católica imposta aos índios desde o começo, mas ele diz no relato que os mesmos ouviram a missa com prazer e devoção. Ora, como poderiam se não entendiam nada do que estava acontecendo nem a linguagem utilizada? Se suas fisionomias eram boas provavelmente estavam demonstrando curiosidade pelo que estava acontecendo e não prazer e devoção.

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.
Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.
Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d'água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.
Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem. E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.
E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.
E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos. 
E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.
OBSERVAÇÕES:  Caminha fala ao rei sobre deixar dois degredados em nossas terras quando partissem e estava se referindo a dois ladrões portugueses. Passaram a enviar os ladrões de Portugal para viver no Brasil com os índios.

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.
Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.
E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.
Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.
Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.
Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.
Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.
Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles. 
Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.
E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima.
E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.
E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.
Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem -- para os bem amansarmos !
Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram -- fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montezinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.
Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.
Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.
E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam. 
Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.
Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.
E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.
Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.
Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.
E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.
Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!
E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.
Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.
Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.
Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.
Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.
Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.
Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.
Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.
Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!
Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.
Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pagem; e Aires Gomes a outro, pagem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos -- o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.
OBSERVAÇÕES: Caminha relata que os índios também ajoelhavam e faziam os gestos que os portugueses faziam como se compreendessem algo, no entanto, para eles aquilo tudo era diferente e estranho; e provavelmente repetiam por “imitação”, simplesmente sem a compreensão de nada.
Menciona ao rei que os índios não tinham crença alguma, o que sabemos que é mentira porque eles tinham sim suas crenças e costumes, as quais foram aniquiladas. E acrescenta que chegaram as terras por obra e vontade de Deus, quando na verdade planejaram alcançá-las.

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.
Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!
Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.
Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.
E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.
Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.
Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.
Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.
Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! 
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha.

OBSERVAÇÕES: Percebemos nas palavras de Caminha nitidamente a intenção de “manipular” os índios como desejava o rei de Portugal porque a verdadeira intenção não foi “catequizá-los” como a história diz e como aprendemos nas escolas. Eles perceberam e, Caminha deixa bem claro ao rei, a inocência dos índios e a facilidade de “dominá-los” para que ficassem a mercê de Portugal; e assim fizeram.
Ele percebe também que as riquezas do Brasil poderiam ser exploradas; e assim fizeram.
Fala da missão de “salvar os índios” segundo a fé católica como se estivessem perdidos em meio ao pecado e eles não. Como se somente a fé católica fosse correta e qualquer outra religião não.
Ao final, Caminha encerra a carta solicitando ao rei a vinda de seu genro para as novas terras e não menciona, mas o mesmo era também um degredado que estava preso em Portugal e percebemos uma “troca de favores” entre os dois, que nos remete ao famoso “jeitinho brasileiro” ao qual estamos bem acostumados.

Bibliografia:
Carta de Pero Vaz de Caminha.Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/carta_caminha.htm>.
Acesso em: 07 out. 2013.

PRODUZIDO POR: DANIELA MENEGASSI E GEZIEL ALVES DE MELO 

RESUMO DE TRABALHO - ANÁLISE DA REVISTA “CARTACAPITAL” (ANO XVIII – Nº 752 – 12/07/2013) EDITORA CONFIANÇA

Introdução: Conhecimentos sobre a Mídia Impressa

O uso do computador impulsionado pelas novas tecnologias da informação e comunicação não eliminaram o uso do papel e da mídia impressa. Em seus variados formatos, sejam livros, revistas, jornais, cartazes, entre outros, elas continuam a ter função importante no processo de ensino-aprendizagem, seja como única mídia utilizada ou como apoio a outras mídias.
Para conhecimento, lembramos que as revistas chegaram ao Brasil juntamente com a corte portuguesa no início do século XIX, e vêm desenvolvendo-se e adaptando-se ao mercado constantemente para atender diversos públicos ao longos dos tempos.

A revista é um produto?

"Produto, em administração e marketing, é um conjunto de atributos, tangíveis ou intangíveis, constituído através do processo de produção, para atendimento e necessidades reais ou simbólicas, e que pode ser negociado no mercado, mediante um determinado valor de troca, quando então se converte em mercadoria".
Desta forma, a revista pode ser considerada um produto e, além disso, é divulgada como um produto utilizando-se de Estratégias de Marketing e Vendas a fim de conquistar seus leitores (público-alvo). 
Podemos mencionar também que as empresas e seus empresários utilizam a revista para divulgar os mais variados produtos e serviços.

ANÁLISE DE CAPA - Como ocorre sua montagem e qual é sua importância?

A embalagem de todo produto é o primeiro contato do consumidor com o mesmo e a sensação que ela provocar nele é quem vai determinar sua compra. Como consumidores sabemos disso e com certeza agimos assim. Definimos se vamos comprar tal produto ou não olhando inicialmente sua embalagem e da mesma forma agimos com a revista. 
Seguindo este raciocínio, a embalagem de uma revista é a sua CAPA. Por isso, ela deve mostrar ao leitor o que contém em seu interior (seu espírito) e convidá-lo a conhecê-la. 

PRESENÇA DO DISCURSO PUBLICITÁRIO

Segundo Fred Tavares: 
"A publicidade é uma mensagem paga veiculada nos meios de comunicação com objetivo de vender um produto ou serviço, sob a forma de uma marca comercial, para um público-alvo (consumidor) utilizando-se de recursos linguísticos e estilísticos de ordenação, persuasão e sedução através de apelos racionais e emocionais".
Considerando seu método discursivo, a estrutura persuasiva do texto publicitário está baseada em princípios estabelecidos por Aristóteles há mais de 2 mil anos na retórica. São eles: o apelo à emoção, o oferecimento da prova e o apelo à credibilidade do comunicador.

CONCLUSÃO

A realização deste trabalho da forma que foi construído seguiu os tópicos indicados por nosso professor, JOSÉ PLÍNIO C. BERTOLONI, e para tanto fizemos o uso de pesquisas na internet acrescentando algumas opiniões pessoais.Após a sua execução, concluímos que esta foi uma ótima proposta de trabalho, pois estudar os meios de comunicação é algo interessante que nos traz importantes conhecimentos. Tais conhecimentos permitem-nos entender aspectos propositalmente implícitos e subliminares (escondidos em meio às entre linhas) no mundo da publicidade. 
Com certeza folheamos inúmeras revistas, mas a partir destes estudos as folhearemos com um olhar mais crítico e levaremos em consideração detalhes imperceptíveis aos olhos da grande maioria que é manipulada inconscientemente.
Desta forma, como leitores que somos, teremos então a possibilidade de separar melhor os conteúdos apresentados e distinguir o que é certo do que talvez seja errado, compreender a verdadeira opinião do autor, concordar ou não com ele e até mesmo teremos condições de criticarmos construtivamente as informações. Seremos capazes de prestar atenção nestes pormenores maquiados por trás de uma informação ou da divulgação de um produto ou serviço nas diferentes mídias, e poderemos assim tomar decisões talvez mais assertivas.

ANÁLISE DE TEXTOS ORAIS E ESCRITOS

Bibliografia:

Mídia Impressa.
Disponível em: <http://www.infoescola.com/comunicacao/midia-impressa/>.
Acesso em: 17 set. 2013.

Entendo melhor a revista como mídia impressa.
Disponível em: <http://agenciamartte.wordpress.com/2012/09/03/entendendo-melhor-a-revista-como-midia-impressa/>.
Acesso em: 17 set. 2013.

Revista. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Revista>.
Acesso em: 17 set. 2013.

Produto (marketing). Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Produto_(marketing)>.
Acesso em: 17 set. 2013.

CartaCapital. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/editora/cartacapital>.
Acesso em: 17 set. 2013.

Manual para elaboração de trabalhos acadêmicos / Apresentação - NBR 14724 Disponível em: <http://www.anhanguera.com/bibliotecas/normas_bibliograficas/>.
Acesso em: 17 set. 2013.

Tudo sobre revistas. Disponível em: <http://design-editorial.blogspot.com.br/search/label/Capas>.
Acesso em: 17 set. 2013.

O discurso publicitário. Uma análise crítica. Disponível em: <http://www.fredtavares.com.br/discurso_publicitario.htm>.
Acesso em: 19 set. 2013.

PRODUZIDO POR: DANIELA MENEGASSI 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

As ideias fora do lugar (Roberto Schwarz)


Vamos a uma boa reflexão realizada na faculdade ontem na aula de Literatura Brasileira.
Como desconhecemos a nossa própria história porque as coisas nas escolas nos são ensinadas de forma fundamentalista e manipulada. Sim, "manipuladas", porque eles sempre querem que conheçamos o que lhes agrada, mas na faculdade as coisas mudam um pouco e que bom que mudam. Somente aqueles que se permitem chegar até a mesma e que buscam mais conhecimento são brindados com informações tão importantes.
Estudamos o texto As ideias fora do lugar de Roberto Schwarz e me surpreendi ao compreender que nossa identidade foi roubada desde a nossa colonização. E no decorrer dos anos, eles continuaram nos roubando tudo mesmo após a abolição da escravidão que na verdade é mais uma mentira. Não temos mais negros escravos, mas temos "outros escravos" por ai e sabemos, mas fingimos que não sabemos. Por quê sempre fingimos que não sabemos tantas coisas?
No final do século XIX, os portugueses trouxeram até nós ideias, costumes, a cultura, a arte, a literatura, dentre outras coisas das tendências europeias e assim nossas verdadeiras raízes foram escondidas e enterradas.
O que somos afinal? Somos descendentes dos índios, mas é mais chique imitar as tendências europeias, certo? E assim vivemos até hoje com ideias realmente fora do lugar porque as mesmas não nos pertencem e fazem-nos perder nada mais e nada menos que a nossa própria "essência".

"Aprender é mudar posturas" (Platão)


As pessoas que buscam o conhecimento se deparam sim com situações complicadas que às vezes vão contra aquilo que aprenderam ou creem, pois passam a compreender o que está escondido nas entre linhas e as verdades que todos querem esconder.
O importante é ter a mente aberta sem preconceitos e filtrar as informações, além é claro de manter o respeito.
No final cada um continua acreditando naquilo que prefere e ponto.

Me recordo perfeitamente de um Professor de Sociologia que tive na FAC-FITO de Osasco que era um perfeito ateu e questionava tudo colocando-nos em situações até constrangedoras. A aula dele era exatamente na segunda-feira e ele entrava na sala com um sorriso azedo perguntando:
- Quem foi à missa ontem?
Meu Deus, aquilo para mim no primeiro ano da faculdade era um absurdo e desrespeitoso com todos os Católicos que estavam ali presentes como eu e que tinham sim participado da missa no domingo anterior.
Entretanto, com o tempo fui refletindo seus ensinamentos e questionamentos, aceitando alguns e me desfazendo de outros, simplesmente vendo que o professor era um crânio de tão inteligente e tinha uma metodologia perfeita de fazer-nos compreender o que ensinava.
Ao final dos 4 anos, ele era Diretor da faculdade e mesmo com aquele jeitão carrancudo de ser, tinha sim conquistado muitos de nós.

Concluo dizendo que não é possível querer cursar uma faculdade fechado dentro de uma bolha porque as verdades serão questionadas sim e muitas coisas presentes na história dizem respeito a Igreja e sabemos disso, mas optamos por fingir que não sabemos.